Governo articula projeto para acabar com escala 6×1 no país

Published On: 30/01/2026 18:43

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Proposta própria do Executivo busca ampliar o descanso semanal sem reduzir salários e reacende debate sobre jornada de trabalho no Congresso

A discussão sobre o fim da escala 6×1 expõe uma contradição antiga do mercado de trabalho brasileiro: cobra-se produtividade de país desenvolvido mantendo rotinas que lembram o início do século passado. Trabalhar seis dias seguidos para descansar um não é virtude, é exaustão institucionalizada. O fato de o governo agora cogitar um projeto próprio para enfrentar esse modelo revela que o tema deixou de ser tabu e passou a ser inevitável.

Não se trata de romantizar menos trabalho, mas de discutir trabalho melhor. A escala 6×1 afeta diretamente saúde mental, convívio familiar e segurança no ambiente laboral. Basta observar setores como comércio, serviços e logística para perceber o custo humano desse arranjo. O discurso de que “sempre foi assim” não se sustenta quando dados de adoecimento e afastamentos crescem ano após ano.

É legítimo que empresários temam impactos operacionais. Ninguém ignora a complexidade de setores que funcionam de forma contínua. Mas usar essa dificuldade como argumento para manter um modelo desgastado é confundir transição com imobilismo. Experiências internacionais mostram que jornadas mais equilibradas reduzem absenteísmo, aumentam foco e, no médio prazo, melhoram resultados. Produtividade não é sinônimo de horas acumuladas; é eficiência.

O governo acerta ao tentar organizar o debate com um texto próprio, em vez de deixar a pauta pulverizada em propostas desconectadas no Congresso. Se houver coragem política, o projeto pode estabelecer um padrão mínimo civilizatório: descanso real, previsibilidade de jornada e preservação salarial. Isso não elimina negociações setoriais, mas define um piso de dignidade.

Há também um componente social pouco debatido. A escala 6×1 pesa mais sobre mulheres e trabalhadores de baixa renda, que acumulam jornadas invisíveis fora do expediente. Ignorar isso é perpetuar desigualdades sob o rótulo de “necessidade do mercado”. Modernizar a jornada é, portanto, uma decisão econômica e social.

Claro, o risco existe: transformar o tema em peça de marketing político. Se virar promessa vazia, o desgaste será maior do que o ganho. Mas se o debate avançar com dados, diálogo e responsabilidade, o país dá um passo que já deveria ter sido dado há décadas.

O Brasil precisa escolher se quer competir pela exploração do tempo ou pela inteligência do trabalho. Manter a escala 6×1 como regra diz muito sobre essa escolha. Enfrentá-la, com seriedade, pode ser um raro sinal de maturidade institucional.

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